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 A Família é essencial a toda e qualquer pessoa. Não se pode servir o homem, se não se servir a Família. Olhando para os vários aspectos da pessoa humana, desde a sua biologia à sua dimensão espiritual, descobre-se que a Família, enquanto comunidade em que a pessoa nasce, cresce, aprende a viver, desenvolvendo as suas potencialidades até constituir uma nova família, estrutura o que uma pessoa é e pode vir a ser.

É no seio da família que os avós têm um papel preponderante. Entre eles e os netos geram-se fortes laços que beneficiam ambas as gerações. Ocupam um lugar único, lugar que reflecte a disponibilidade de estar e de escutar, de partilhar histórias e brincadeiras. Para os netos, os avós são, na sua maioria, uma fonte de carinho inesgotável.

É neste sentido que hoje recordo os meus avós, por aquilo que foram e por tudo o que me ensinaram. Conheci, apenas, três, pois o meu avô materno faleceu quando a minha mãe era, ainda, muito pequenina. Contudo, nem por isso, foi motivo de esquecimento. Tanto a minha avó materna como a minha mãe souberam-me transmitir o que ele foi durante toda a sua vida: nunca cruzou os braços perante as dificuldades e defendeu sempre as causas e os princípios em que acreditava, com toda a sua força e alma, sendo um verdadeiro lutador. Bem-haja avô, por tudo o que foi; a sua neta, embora não o tenha conhecido, sente muito orgulho de si, por tudo o que lutou e soube transmitir aos outros.

A minha avó materna foi uma flor plantada num jardim. Muito nova ficou viúva, mas nem por isso deixou de lutar para criar os filhos de uma forma digna e honrada, sendo estimada por todos que a rodeavam. Dela aprendi o que é AMAR A VIDA, vivendo-a em cada momento, como se a felicidade fosse o AQUI e o AGORA. Para ela, a Sabedoria consistia em sabermos transformar tudo numa boa experiência, em sabermos perdoar, para sermos perdoados, em sabermos sorrir, mesmo quando o nosso coração chora, em sabermos olhar o mundo com generosidade, de forma a que tudo se torne diferente e mais fácil…

Os meus avós paternos transmitiram-me valores, alguns deles, esquecidos na sociedade em que vivemos, onde se é mais importante pelo que se tem e menos pelo que se é.

Nas férias de Verão, quando a escola e o tempo de praia (cerca de um mês) terminavam, deslocava-me até à sua casa situada numa pequena aldeia da Beira Serra, juntamente com o meu irmão mais velho. Tivemos o privilégio de vivermos esses tempos quando os nossos avós ainda estavam no vigor das suas vidas, muito antes das doenças os incomodarem. Acompanhava os meus avós para todo o lado e eles sentiam-se muito felizes por estarmos com eles. Satisfaziam a curiosidade da criança que era nessa altura, falando e explicando vários assuntos, desde o que a Natureza nos ia mostrando até outros bem mais sérios, mas conversados de uma forma tão natural que me encantavam e me faziam sentir diferente: era uma cumplicidade entre avós e neta difícil de explicar, mas que mais tarde, já adolescente e adulta, me prepararam para ver o mundo e as pessoas com “olhos de ver”. Nunca os vi recusar ajuda a quem dela necessitava, em particular o meu avô, que estava sempre presente, quer fosse dia ou noite, quer chovesse ou fizesse sol. Do exemplo das suas vidas, aprendi como é importante o saber AMAR os outros como à nossa própria família, aceitando os seus defeitos e apreciando, acima de tudo, as suas qualidades; o saber ser TOLERANTE e SOLIDÁRIO… enfim, o saber viver e estar no mundo que nos rodeia.

Para os meus avós maternos e paternos, um grande beijinho de muita saudade, todo o meu carinho e um muito obrigado por me terem ajudado a ser quem sou.

Para todos os avós recentes e para aqueles que muito proximamente o serão, um beijinho de muita ternura e que o sentimento de AMOR INCONDICIONAL que sentem pelos seus netos, (amor que os meus avós sempre sentiram) seja sempre uma fonte onde a sua sedução os torna tão especiais na vida de cada um de nós, os netos.

Maria do Rosário Neves

RETALHOS

 

O Tijó é um dos meus netos de quatro anos. Sim porque entre doze netos sub 10, há dois com quatro anos. O Tijó é uma daquelas crianças traquinas com uma espontaneidade de vulcão e um coração que transborda o seu pequeno tamanho.

Dadas as contingências geográficas e familiares encontro-o poucas vezes.

Este verão encontramo-nos numas férias de campismo numa serra da zona centro.

O contacto de crianças urbanas com o ambiente serrano é sempre muito enriquecedor.

Num dia de grande calor estávamos numa das muitas praias fluviais com piscina de água corrente para os mais pequenos.

Como não  tinha o meu fato de banho, escondi-me na sombra de uma árvore, bem lá ao fundo. Do meu posto observava as crianças que entre saltos e mergulhos saboreavam a frescura da água.

O Tijó, entre uma das suas saídas do fundo das águas, por entre os riachos que lhe escorrem do rosto, descobre-me e corre ao meu encontro. 

Avó….!!!! E recebo o abraço mais quente (e encharcado) da minha vida!

 

Este episódio trouxe à minha memória outra passagem 20 anos atrás.

O Sete, chega da escola todo às riscas verdes.

Andaste a rebolar-te na relva ? Perguntei.

Fui assaltado ali no jardim.

E o assalto suja de verde?

Andamos muito tempo à pancada na relva, até ficarmos amigos! Depois estivemos a falar…

O sete também explodia de espontaneidade perante a surpresa! Ainda algum dia uma surpresa lhe pode ser fatal!

fotografia daniel sampaio

“Precisa de estudar mais a gramática indicada”
Maria Ema Ferreira

Esta foi a única vez que a minha Avó se zangou comigo. Quando lhe dei o caderno de português para assinar, olhou-me com atenção, escreveu o nome com a sua letra antiga e bem desenhada e disse, mais ou menos assim: “Querido Dani, espero que isto nunca mais se repita. Estás em minha casa e gosto muito disso, mas tudo tem de correr bem, sobretudo com os estudos, que são a tua obrigação. Não te esqueças que prometeste ser um bom aluno, nem de outra forma poderia ser, se queres continuar por cá, como me parece. E agora podes ir brincar para o pátio, porque me parece que já fizeste os trabalhos do liceu”
O tom era sereno, o olhar firme. Depressa voltou aos seus bordados e eu fui jogar à bola com os vizinhos, nas traseiras do apartamento de Campo de Ourique. Mas não esqueci o incidente: vejo ainda agora o caderno do Liceu normal de Pedro Nunes, verde com letras pretas, reconheço a letra e a assinatura da minha professora de Português e Francês, Maria Ema Ferreira. Tenho dez anos acabados de fazer e estou no 1º ano do liceu (no 5º ano, como se diria agora). Os meus pais, eternos defensores do ensino público e laico, não queriam que eu saísse da primária para um colégio privado e religioso, como era habitual para os meninos da classe média. Em Sintra, onde vivíamos, a oferta escolar era diminuta nos anos 50:
Não havia ensino público liceal e os colégios privados, embora prestigiados, não agradavam às convicções dos meus pais. Tal como tinha acontecido com o meu irmão, sete anos mais velho, a decisão de passar três anos na casa de Lisboa da minha Avó não levantava grandes questões para a nossa família.
A minha avó Sarah (escrevia com h no fim por razões da sua ascendência judaica, como se verá) era mãe da minha mãe. Passava as férias grandes em Sintra, numa casa construída pelo seu sogro, Marcelino Augusto Branco, cedida em parte aos meus pais após o casamento. Depois da morte do meu avô materno, em 1941, tinha alugado um pequeno apartamento em Campo de Ourique, onde recebia com frequência as duas filhas ( a minha mãe Fernanda e a minha tia Regina)e os três netos ( o meu irmão Jorge, o meu primo Filipe e eu). Passei lá três anos, dos 10 aos 13, como já tinha acontecido com o Jorge: a ideia era crescermos um pouco para sermos capazes de suportar a ida e volta de Sintra para Lisboa, em comboios sempre atrasados e pouco frequentes. Embora não fosse fácil viver separado dos pais (só nos víamos ao fim de semana ou em visitas ocasionais de minha mãe), a minha Avó era uma pessoa tão afectuosa e coerente na educação que a experiência de viver consigo foi marcante. Relato o episódio do caderno de Português, não só foi determinante para que de imediato eu percebesse quem mandava, mas também para compreender desde logo o entendido com obrigatório: ser bom estudante.
Não se pense, contudo, que só o estudo interessava à minha Avó: tinha grande preocupação com os meus colegas, que recebia com gosto, pedindo à Assunção – uma empregada/governanta que a acompanhou até ao fim dos seus dias – para não se esquecer de “preparar o lanche para os meninos”. Sentava-se ao pé de nós e perguntava pela vida do liceu, sem se intrometer na nossa intimidade, apenas com a preocupação de que eu não vivesse isolado: vindo de Sintra, afirmava, corria maior risco de não fazer amigos (a minha Avó, que era do tempo do rei D. Carlos e que recordava a Rainha D. Amélia a passear na Pena, achava que Sintra se tinha tornado muito desinteressante). Distinguia, no entanto, colegas e conhecidos dos verdadeiros amigos: quando propus fazer um lanche com quase toda a turma, lembrou-me que “os amigos são como os diamantes, preciosos mas raros”, e eu depressa risquei mais de metade dos nomes. Verifico agora, cinquenta anos depois, como tinha toda a razão.
Sempre me intrigou por que razão nunca gritava, mesmo quando se notava que alguma coisa a tinha irritado: olhava apenas um pouco de lado, às vezes sorria com meia cara e dava a sua opinião sem medo. Com persistência, levava os outros a concordar consigo, pois para nós (sobretudo os netos) era muito difícil discordar dela. Não tinha grandes estudos, mas, como era típico das senhoras da classe média-alta de então, falava bem francês e inglês, interessava-se por música e pela leitura dos clássicos: estou certo de que foi uma das principais responsáveis pelo meu amor pelos livros.
Durante muito tempo não me interessei pelas suas origens. Queria recordá-la no presente, como se os anos não tivessem passado e eu ainda estivesse em Campo de Ourique. Ou nos jantares de Natal, por si presididos na casa de Sintra: a Avó Sarah a sorrir, a perguntar que tal estava o peru, a olhar para os netos com ternura quando desembrulhávamos os presentes, ou ainda quando nos derrotava no jogo do Cluedo ou nas cartas do King (achava que os adultos nunca deveriam proteger as crianças e fazer batota, nós que aprendêssemos a jogar cada vez melhor).
Lembro-me da minha Avó quase todos os dias, recordo-me dos seus comentários em muitos momentos, mas foi a tão discutida questão da autoridade que me despertou curiosidade pelo seu passado. (…)

Daniel Sampaio
Prof. Catedrático de Psiquiatria e Saúde Mental da Fac.Medicina
(6ª ed.,2008) A Razão dos Avós.Lisboa:Editorial Caminho.

       O Meu Avô João Gigante       

                            João Gigante

Fabricante de Lanifícios

João Gigante Fabricante de Laticínios

Há vidas que não podem deixar de ser faladas… que não nos deixam indiferentes.

Porque são feitas de feitos, de momentos mágicos, de gestos de grandeza indubitável, de conselhos perfeitos que nos deixam forte marca vida fora.

Recordo, que quando era  pequenita, no dia do almoço “semanal” o meu lugar à mesa era sempre ao lado do  avô João Gigante.

Gostava de me sentar pertinho dele e de o ouvir falar… e se ele falava! 

Lembro-me, como se fosse hoje, o quanto gostava de o ouvir/olhar e ver os seus olhos brilhantes de orgulho… quando me explicava todos os acontecimentos importantes desse dia ou dessa semana e não interessava que tema, (política, lanifícios, os teares da fábrica, o mundo lá fora…) falava e comentava…

Hoje, embora esbatidos pelo tempo, estão ainda na minha memória “pequenos pedaços” audíveis de alguns desses “monólogos”!

Passeava muito comigo pela quinta que tinha no Ferro, muito pertinho da Covilhã e muito pequenita me levava junto à mina que lá havia, abria a porta que estava fechada e … U-uu, U-uu, Hmmm, Hum, (ecoava o eco) e contava -me baixinho a história da “Moura Encantada” que lá vivia…Olha, lá ao fundo, não a vês?

(Será por isto que ainda hoje me fascina o traje típico da mulher árabe?)

Saída do país das maravilhas, logo de seguida, me colhia uns moranguinhos do canteiro para comer (às escondidas da minha mãe, pois não estavam lavados ).

Biológicos, por sinal!

Envergonhada, num dia de vindimas, ensinava-me a reconhecer os Outros como meus iguais, com os mesmos direitos, sem idade, género ou classe social ao “enfiar-me” no lagar na pisa da uva no meio de tanto desconhecido!

Convicções que foram fortalecidas ao longo da minha Vida!

Planeava/sonhava comigo uma ida a Paris!

Tivesse eu bons resultados nos estudos e passasse para o 3º ano, (Hoje 7º ano de escolaridade) com boas notas que o dinheiro para a viagem lá apareceria! França, Paris à data … era cidade de conhecimento obrigatório. “Cantava-me” esta cidade, numa bela prosa, pintava-ma e fotografava-ma!

Cheguei a conclusão que esta era também a viagem à “sua cidade”, Paris era dele e queria que fosse minha também!

Partiu meses depois…. Numa outra Viagem, desta vez para Sempre.

Recordo com tanto carinho e saudade as suas histórias/verdades do antigamente, contadas de forma tão séria, tão sentida … (que bom, Era tão securizante!) e como eu, ansiava curiosa pelo desfecho imprevisível de mais uma história de gente grande.

Que cumplicidade havia, só nós dois, no meio de mais uns quantos!

Sempre o ouvi falar e opinar… Todas as ocasiões, por vezes, as menos pensadas, eram a altura ideal… Não havia receios de olhares ou críticas. Com ele comecei a aprender a Fortaleza! E sei ainda hoje que nada pode deter a força de quem canta com alma na voz.

Conselhos que bebia com respeito, confiança e admiração. Bebia-lhe as palavras, como que “tinha a certeza das coisas do Mundo”. Sei hoje que possuíam sabedoria e experiência.

Lembro-me ainda das vistosas e imponentes procissões da Semana Santa, na Páscoa, como orgulhoso me “ostentava” com o meu vestido de anjo na Procissão Solene do Senhor dos Passos, na Covilhã.

Era uma indumentária fantástica! A minha roupa parecia imitar o corpo e as asas dos anjos, as mangas levavam armações especiais sobre as quais esvoaçavam gases, fitas, rendas, e penas de uma brancura imaculada que a calçada longa, …ao longo do “Percurso” ia manchando. Na cabeça levava uma espécie de tiara. Os cabelos caíam soltos. Com a minha mão agarradinha à dele, marchava com o ar triunfal de quem compreendia  perfeitamente a honra de fazer parte duma cerimónia assim! O passo era lento e medido, com paradas frequentes que por vezes eram aproveitadas para saborear “provocadoras iguarias de açucar”

Os nossos passeios pela quinta, onde os silêncios repousantes do entardecer das tardes quentes de Verão se misturavam com os cheiros adocicados da terra, da “nossa”figueira alta, de copa frondosa e ampla carregadinha de figos maduros. Os dois sentados no muro,… histórias fictícias, palavras inventadas, momentos únicos!

E tenho tantas saudades desse tempo, em que o tempo me deixava estar mesmo contigo… Agora animo-me com as Saudades que tenho de ti, avô do Coração!

E o tempo passou…

Hoje…também sou avó, a avó do meu querido Samuel.

E continuo a ter uma ” Moura Encantada” dentro de mim, que no eco da sua voz, me chama baixinho e me pede para te dizer que “Elas” ainda hoje aparecem frequentemente cantando e penteando os seus longos cabelos, louros como o ouro ou negros como a noite, com um pente de ouro, e prometem tesouros a quem as libertar do encanto!

Como iremos fazer isto então, Samuel?

Penso que é de uma grande ternura e, ao mesmo tempo, uma aprendizagem para os mais novos e uma recordação para quem já não tem avós.
Beijinhos
Maria do Rosário

avo&avo

Ana Gigante, 56 anos, avó do Samuel mais lindo do Mundo, do meu Sonho Pequenino!
Um bébé alegre, feliz, de sorriso aberto e confiante que sempre que acorda com os seus “olhos de ver tudo”, no seu viver infantil vai aprendendo… que é o futuro do Mundo!

O “dentinho Samuel”, pergunta a avó??
Logo, logo… felicidade e cumplicidade naquela boquinha de riso que se desenrola em duas pequenas dentolas!
Pedaços de Vida tão bons de serem vividos!

De uma avó para todos os netos do Mundo, de Drummond.

Acorda, Luis Mauricio. Vou te mostrar o mundo,
se é que não preferes vê-lo de teu reino profundo.

Despertando, Luis Mauricio, não chores mais que um tiquinho.
Se as crianças da América choram em coro, que seria, digamos, do teu vizinho?

Que seria de ti, Luis Mauricio, pranteando mais que o necessário?
Os olhos se inflamam depressa, e do mundo o espetáculo é vário

e pede ser visto e amado. É tão pouco, cinco sentidos.
Pois que sejam lépidos, Luis Mauricio, que sejam novos e comovidos.

E como há tempo para viver, Luis Mauricio, podes gastá-lo à janela
que dá para a “Justicia del Trabajo”, onde a imaginosa linha da hera

tenazmente compõe seu desenho, recobrindo o que é feio, formal e triste.
Sucede que chegou a primavera, menino, e o muro já não existe.

Admito que amo nos vegetais a carga de silêncio, Luis Mauricio.
Mas há que tentar o diálogo quando a solidão é vício.

E agora, começa a crescer. Em poucas semanas um homem
Se manifesta na boca, nos rins, na medalhinha do nome.

Já te vejo na proporção da cidade, dessa caminha em que dormes.
Dir-se-ia que só o anão de Harrods, hoje velho, entre garotos enormes,

conserva o disfarce da infância, como, na sua imobilidade,
à esquina de Córdoba e Florida, só aquele velho pendido e sentado,

de luvas e sobretudo, vê passar (é cego) o tempo que não enxergamos,
o tempo irreversível, o tempo estático, espaço vazio entre ramos.

O tempo – que fazer dele? Como adivinhar, Luis Mauricio,
o que cada hora traz em si de plenitude e sacrifício?

Hás de aprender o tempo, Luis Mauricio. E há de ser tua ciência
uma tão íntima conexão de ti mesmo e tua existência,

que ninguém suspeitará nada. E teu primeiro segredo
seja antes de alegria subterrânea que de soturno medo.

Aprenderás muitas leis, Luis Mauricio. Mas se as esqueceres depressa,
Outras mais altas descobrirás, e é então que a vida começa,

e recomeça, e a todo instante é outra: tudo é distinto de tudo,
e anda o silêncio, e fala o nevoento horizonte; e sabe guiar-nos o mundo.

Pois a linguagem planta suas árvores no homem e quer vê-las cobertas
de folhas, de signos, de obscuros sentimentos, e avenidas desertas

são apenas as que vemos sem ver, há pelo menos formigas
atarefadas, e pedras felizes ao sol, e projetos e cantigas

que alguém um dia cantará, Luis Mauricio. Procura deslindar o canto.
Ou antes, não procures. Ele se oferecerá sob forma de pranto

ou de riso.E te acompanhará, Luis Mauricio. E as palavras serão servas
de estranha majestade. É tudo estranho. Medita por, exemplo, as ervas,

enquanto és pequeno e teu instinto, solerte, festivamente se aventura
até o âmago das coisas. A que veio, que pode, quanto dura

essa discreta forma verde, entre formas? E imagina ser pensado,
pela erva que pensas. Imagina um elo, uma afeição surda, um passado

articulando os bichos e suas visões, o mundo e seus problemas;
imagina o rei com suas angústias, o pobre com seus diademas,

imagina uma ordem nova; ainda que uma nova desordem, não será bela?
Imagina tudo: o povo,com sua música; o passarinho, com sua donzela;

o namorado com seu espelho mágico; a namorada, com seu mistério;
a casa, com seu calor próprio; a despedida, com seu rosto sério;

o físico, o viajante, o afiador de facas, o italiano das sortes e seu realejo;
o poeta sempre meio complicado; o perfume nativo das coisas e seu arpejo;

o menino que é teu irmão, e sua estouvada ciência
de olhos líquidos e azuis, feita de maliciosa inocência,

que ora viaja enigmas extraordinários; por tua vez, a pesquisa
há de solicitar-te um dia, mensagem perturbadora na brisa.

É preciso criar de novo, Luis Mauricio. Reinventar nagôs e latinos,
E as mais severas inscrições, e quantos ensinamentos e os modelos mais finos,

de tal maneira a vida nos excede e temos de enfrentá-la com poderosos recursos.
Mas seja humilde tua valentia. Repara que há veludo nos ursos.

Inconformados e prisioneiros, em Palermo, eles procuram o outro lado,
E na sua faminta inquietação, algo se liberta da jaula e seu quadrado.

Detém-te. A grande flor do hipopótamo brota da água – nenúfar!
E dos dejetos do rinoceronte se alimentam os pássaros. E o açúcar

que dás na palma da mão à língua terna do cão adoça todos os animais.
Repara que autênticos, que fiéis a um estatuto sereno, e como são naturais.

É meio-dia, Luís Maurício, hora belíssima entre todas,
pois, unindo e separando os crepúsculos, à sua luz se consumam as bodas

do vivo com o que já viveu ou vai viver, e a seu puríssimo raio
entre repuxos, os “chicos” e as “palomas” confraternizam na “Plaza de Mayo”.

Aqui me despeço e tenho por plenamente ensinado o teu ofício,
que de ti mesmo e em púrpura o aprendeste ao nascer, meu netinho Luis Mauricio.

Para ti Samuel, muito especialmente, fica aqui um lindo texto que Maria Alberta Meneres escreveu à avó em Maio de 1993.
Mal a avó sabia ….como hoje tanto me diria!

E transcrevo:

Que seria dos netos se não houvesse avós?
Que seria dos avós se não houvesse netos?

É fácil: não haveria nem avós nem netos, e a Humanidade nem sabe o que perdia!
De um modo geral, é espantosa e única a cumplicidade entre a geração dos avós e a geração dos netos. Sei hoje melhor como isto é verdade, pela simples razão de ter uma neta.
Não é um recuo no tempo, mas um saborear do tempo em que se vive. Uma maior atenção às pequeninas coisas do dia a dia, um olhar mais em frente que em plena consciência se assume.
O que a minha neta me ensina vem do princípio do mundo.
O que eu tenho, parece que sempre pronto para lhe dizer, para lhe contar, tem uma sabedoria que me escapa, talvez porque venha de lá do fim do mundo. Pelo meio, há um tempo sem tempo, a que os estranhos poderão chamar uma paciência infinita para o entendimento e as alegrias entre duas gerações distintas, uma disponibilidade imensa para as descobertas e redescobertas da própria vida.
Conhecendo de há muito, o peso e a densidade do tempo, os avós jogam com esse cohecimento para orientar e alegrar o convívio com os netos. Ignorando ainda o peso e a densidade do tempo, os netos trazem essa primeira ignorância para o regaço e os olhos deslumbrados dos avós. E de um lado saltam as histórias, as lengalengas, as memórias em jeito de aventuras; do outro, nascem as perguntas, afinam-se as curiosidades, inventam-se os espantos.
Quem pergunta e quem responde, não é preciso saber.
Quem ensina e quem aprende, traz um sabor de reciprocidade.
Que seria dos avós se não houvesse netos?
Que seria dos netos se não houvesse avós?
É fácil: não haveria nem avós nem netos, e a Humanidade nem sabe o que perdia!

• Preciso que cuides de mim, prometo cuidar de ti!

Árvore

God can’t be everywhere. Therefore he created

Grandmothers!

escultura-avo-e-neta