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Para o Samuel

O que senti quando fui bisavó?
De Ana Maria Pereira Neves


O nascimento de uma criança é uma bênção de Deus.
Foi uma bênção muito grande, que Deus deu à minha família!
Para mim o nascimento do Samuel foi “ a continuação” dos netos, no fundo foi mais um neto que chegou. Veio um bebé puro, lindo e fortalhaço.
Tive sempre um grande amor pela minha neta e acompanhei de perto a sua gravidez e fiquei muito feliz quando me disseram que tinha nascido um rapaz e que a minha neta estava bem!
O meu bisneto é uma criança abençoada, bem disposta e acho que vai ser um grande “marotão”. Trouxe – me alegrias muito grandes; os anos vão passando, já não tenho grandes forças para tratar dele, mas só o seu olhar, o seu sorriso e a candura que ele me transmite, me anima, me dá forças e ajuda-me a pensar “que ele é apenas o meu neto mais novo”!
Tenho sete netos de várias idades e a mais nova tem oito anos; talvez por isso eu sinta o meu bisneto como mais um neto que me trouxe muita alegria, amor e muita felicidade à nossa Família.
Assistir à vinda de mais um bisneto é sinal de muitas Graças do Divino Espírito Santo! Foi uma vivência muito bonita, com amor, paz e alegria.
O Baptizado católico do meu bisneto foi um dia de muita felicidade, que jamais esquecerei!
Vê –lo vestido com o fato com que se baptizaram todos os meus filhos (e começou por ser da Avó… Ana Isabel), e todos os meus netos em seguida,
Sensibilizou-me muito o Baptismo, pois reuni os meus filhos, os netos colaboraram na Missa e até o meu genro foi cantar um Salmo e o meu marido fez uma Leitura. Foi uma Festa Inesquecível que entrou, bem fundo, no meu coração!
Agora o meu bisneto já está com “um anito” e os Pais trazem – no muitas vezes ver a avó (bisavó) e há sempre uma grande alegria com as gracinhas do bebé. Como fiz sempre com os meus filhos e netos, lá tenho que fazer o mesmo com o bisneto…mais uns telefonemas à minha neta para saber como está o Samuel, para ficar mais descansada! Está transformado no ”ai Jesus da Família”.
É assim a Vida e peço a Deus que o acompanhe sempre durante todo o seu percurso de Vida.
A Bisavó
Ana Maria Pereira Neves Gigante

Para a Luísa

“O que é ser avô”…Eu sou um avô que já fui filho e neto também e que me lembro, com muita saudade dos meus Pais e Avós, que estão junto de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Foi deles que recebi a minha educação e os princípios que regem a minha vida. Por isso, para mim ser avô é saber que meus filhos também têm filhos, que continuam a nossa Família, as nossas tradições e todo o nosso património cultural que, com amor, lhes transmitimos na educação que lhes demos. É por isso que tenho um especial carinho pelos meus netos, que são a alegria da minha velhice e o futuro da nossa Família.
Com um grande beijo do
Avô João

Sou uma pessoa simples. Mas sou uma avó orgulhosa.
O que te posso dizer? Eu que nem tenho o dom da palavra, sei que te amo que és muito importante para mim e agradeço a Deus ter-me dado a oportunidade de te conhecer e de seres a minha netinha.
Quando eu era mais nova e ao pé de mim ouvia as avós a gabarem-se que tinham netas muito lindas eu ria pois não dava valor ao amor que se podia sentir, hoje que sinto o mesmo só sei é falar de ti.
És linda, meiga, amorosa e inteligente que mais posso dizer, não sei dizer por escrito o que sinto por ti.
Quando nascestes foi uma nova luz que se abriu na minha vida, foi uma alegria, e nestes teus três anos tens sido uma força para eu continuar, és o futuro e a alegria das nossas vidas.
Sim sou uma avó babada. Mas quem não é com uma princesa como tu, cada dia que passa estou mais apaixonada por ti, e só peço muitos anos de vida para te ver crescer com muita saúde, amor e felicidade
Agradeço aos teus pais terem-me dado a oportunidade de te ajudar a criar. Amo-te minha querida.
Vóvó Ana

Meu amor,

Esta é a minha primeira carta dirigida a ti. Quantas e quantas palavras a minha mente decorou, sempre na expectativa de escrever…de transpor para o papel a diversidade de sentimentos que só uma avó tem.
Nasceste num dia de Maio, na Primavera, quando as flores renascem, se renovam, quando o Sol nos presenteia sem queimar. Nasceste pura, perfeita, linda ! Nasceste encantando-nos a todos de tal modo que eu, e de certeza todos os outros teus avós, não encontram respostas para tão enorme sentimento!
Fomos apanhados de surpresa, naturalmente como qualquer avó, pela primeira vez, não posso exacerbar esta emoção, porque não sou a única a tê-la! Sei que muitos avós neste planeta sentem este estado de espírito !
Dizer-te simplesmente que te amo, é suficiente, mas não explicita o conteúdo da força que vieste trazer à minha vida!
Um amor assim, só pode existir no universo dos anjos. Porque ele é intenso, puro, genuíno, tranquilo, feliz, incondicional…
Depois deste imenso presente que deste aos teus pais, e a intensidade e a verdade que existe no amor de mãe e pai, tu vieste também colorir a vida dos teus avós. (E aqui permito-me falar no plural). Pelo amor que todos temos por ti e como cada um e à sua maneira vivencia este novo afecto.

Mais importante que tudo isso é o facto de eu ter passado de uma mãe, apaixonada pelos meus filhos, (o teu pai e o teu tio), e nunca imaginar, sequer, que a tua existência na nossa família viesse dar-me tão grande felicidade e sentido à minha vida!

Acredita, meu amor, que para além das imensas características de beleza física com que Deus te presenteou, tu acima de tudo nasceste com um coração cheio de ternura. Uma alegria incontida, uma capacidade criativa rara na tua idade. Uma inteligência emocional pouco comum. Apenas tens 3 anos, minha querida!

Tu és a luz que veio clarear todas as sombras da minha vida. Tu és um foco onde me centro, seguindo por perto a tua direcção. Tu és uma chuva de pétalas de paz por todos os caminhos por onde passas…sem ti a minha vida jamais faria sentido. Porque para além de minha neta, do meu sangue, do meu coração, existe a cumplicidade que só existe quando a luz é convergente. Tu és luz, alegria…tu és o amor representado no teu Ser!
Se o AMOR tivesse forma física e um nome, eu chamar-lhe-ia..ARIANA !
Beijinhos no teu lindo coração da avó Ni.

O Tomy pediu-me para escrever sobre os meus netos. Que difícil!…
Porquê?
Porque falar de netos tão belos, tão inteligentes, tão educados, parece mesmo exagero!… mas não é.
São lindos, são inteligentes e acima de tudo educados e respeitadores. E digo isto também por comparação. Conheço outros avós e outros netos.
Felizmente muitos netos como os meus. Mas infelizmente muitos e muitos que não têm nenhuma ou quase nenhuma dessas qualidades.
Algumas ou quase todas por culpa dos pais que têm.
Gosto dos meus netos todos que neste momento são seis.
Há uns que vejo mais e outros nem tanto. Sempre que me pedem faço lhes companhia. Dantes levava-os ao cinema, à natação, à dança, aos jogos, etc.
Agora tenho mais idade, algumas doenças e por isso já não me pedem tanto, mas gosto sempre da companhia deles. Sabem mais de tudo do que eu sabia quando tinha a idade deles.
São o meu futuro e eu sou o passado deles?
Gostaste Tomy?

Lisboa, 1 de Dezembro 2009
Chamo-me Isabel Maria e faço 62 anos no dia 18 de Dezembro.
Quando somos pequenos há sempre alguém que nos pergunta:
– O que queres ser quando fores grande?
Comigo aconteceu o mesmo e a minha resposta era sempre a mesma. Quero ser Mãe!
Deus fez-me essa graça e deu – me essa alegria de ter 4 filhos fantásticos. Consegui que todos tirassem o seu curso e hoje são homens e mulheres casados e pais dos meus netos.
Quando esta semana fui mais uma vez visitar os meus netos do Restelo (a Constança, o Vicente e o Miguel Maria) que frequentam o Colégio “O Mundo Português”, a minha neta mais velha pediu-me para eu escrever qualquer coisa sobre os netos. Tenho mais netos mas não vivem no Restelo e já vêm mais dois a caminho.
Sou uma rica Avó. A mais velha tem 9 anos e a mais nova 1 ano.
Todos me pedem para contar partidas e histórias dos Pais quando eram pequenos e como também já há anos que tomo conta de crianças, episódios engraçados não me faltam.
Mas para não me alargar na escrita, vou escrever frases engraçadas que a Constança, Vicente e Miguel Maria me disseram, pois estes é que são os alunos do “Mundo Português”.
Constança (7anos)-
Oh Avó nós as duas somos iguaizinhas. Morenas, gulosas e olhos cor de azeitona.
-Avó be my sweet doll.
Vicente (6 anos)-
A avó é tão “queridinha”.
Miguel Maria (4 anos)-
A Avó veio de mota?
Eu apareci com umas calças pretas de couro.
Espero que tenham gostado. Todos os netos são uma alegria muito grande para os Avós.
No dia em que eu disse que gostaria de ser Mãe, nunca imaginei que muito melhor é ser Avó.
Avolinha
Avó Isabelinha

 A Família é essencial a toda e qualquer pessoa. Não se pode servir o homem, se não se servir a Família. Olhando para os vários aspectos da pessoa humana, desde a sua biologia à sua dimensão espiritual, descobre-se que a Família, enquanto comunidade em que a pessoa nasce, cresce, aprende a viver, desenvolvendo as suas potencialidades até constituir uma nova família, estrutura o que uma pessoa é e pode vir a ser.

É no seio da família que os avós têm um papel preponderante. Entre eles e os netos geram-se fortes laços que beneficiam ambas as gerações. Ocupam um lugar único, lugar que reflecte a disponibilidade de estar e de escutar, de partilhar histórias e brincadeiras. Para os netos, os avós são, na sua maioria, uma fonte de carinho inesgotável.

É neste sentido que hoje recordo os meus avós, por aquilo que foram e por tudo o que me ensinaram. Conheci, apenas, três, pois o meu avô materno faleceu quando a minha mãe era, ainda, muito pequenina. Contudo, nem por isso, foi motivo de esquecimento. Tanto a minha avó materna como a minha mãe souberam-me transmitir o que ele foi durante toda a sua vida: nunca cruzou os braços perante as dificuldades e defendeu sempre as causas e os princípios em que acreditava, com toda a sua força e alma, sendo um verdadeiro lutador. Bem-haja avô, por tudo o que foi; a sua neta, embora não o tenha conhecido, sente muito orgulho de si, por tudo o que lutou e soube transmitir aos outros.

A minha avó materna foi uma flor plantada num jardim. Muito nova ficou viúva, mas nem por isso deixou de lutar para criar os filhos de uma forma digna e honrada, sendo estimada por todos que a rodeavam. Dela aprendi o que é AMAR A VIDA, vivendo-a em cada momento, como se a felicidade fosse o AQUI e o AGORA. Para ela, a Sabedoria consistia em sabermos transformar tudo numa boa experiência, em sabermos perdoar, para sermos perdoados, em sabermos sorrir, mesmo quando o nosso coração chora, em sabermos olhar o mundo com generosidade, de forma a que tudo se torne diferente e mais fácil…

Os meus avós paternos transmitiram-me valores, alguns deles, esquecidos na sociedade em que vivemos, onde se é mais importante pelo que se tem e menos pelo que se é.

Nas férias de Verão, quando a escola e o tempo de praia (cerca de um mês) terminavam, deslocava-me até à sua casa situada numa pequena aldeia da Beira Serra, juntamente com o meu irmão mais velho. Tivemos o privilégio de vivermos esses tempos quando os nossos avós ainda estavam no vigor das suas vidas, muito antes das doenças os incomodarem. Acompanhava os meus avós para todo o lado e eles sentiam-se muito felizes por estarmos com eles. Satisfaziam a curiosidade da criança que era nessa altura, falando e explicando vários assuntos, desde o que a Natureza nos ia mostrando até outros bem mais sérios, mas conversados de uma forma tão natural que me encantavam e me faziam sentir diferente: era uma cumplicidade entre avós e neta difícil de explicar, mas que mais tarde, já adolescente e adulta, me prepararam para ver o mundo e as pessoas com “olhos de ver”. Nunca os vi recusar ajuda a quem dela necessitava, em particular o meu avô, que estava sempre presente, quer fosse dia ou noite, quer chovesse ou fizesse sol. Do exemplo das suas vidas, aprendi como é importante o saber AMAR os outros como à nossa própria família, aceitando os seus defeitos e apreciando, acima de tudo, as suas qualidades; o saber ser TOLERANTE e SOLIDÁRIO… enfim, o saber viver e estar no mundo que nos rodeia.

Para os meus avós maternos e paternos, um grande beijinho de muita saudade, todo o meu carinho e um muito obrigado por me terem ajudado a ser quem sou.

Para todos os avós recentes e para aqueles que muito proximamente o serão, um beijinho de muita ternura e que o sentimento de AMOR INCONDICIONAL que sentem pelos seus netos, (amor que os meus avós sempre sentiram) seja sempre uma fonte onde a sua sedução os torna tão especiais na vida de cada um de nós, os netos.

Maria do Rosário Neves

RETALHOS

 

O Tijó é um dos meus netos de quatro anos. Sim porque entre doze netos sub 10, há dois com quatro anos. O Tijó é uma daquelas crianças traquinas com uma espontaneidade de vulcão e um coração que transborda o seu pequeno tamanho.

Dadas as contingências geográficas e familiares encontro-o poucas vezes.

Este verão encontramo-nos numas férias de campismo numa serra da zona centro.

O contacto de crianças urbanas com o ambiente serrano é sempre muito enriquecedor.

Num dia de grande calor estávamos numa das muitas praias fluviais com piscina de água corrente para os mais pequenos.

Como não  tinha o meu fato de banho, escondi-me na sombra de uma árvore, bem lá ao fundo. Do meu posto observava as crianças que entre saltos e mergulhos saboreavam a frescura da água.

O Tijó, entre uma das suas saídas do fundo das águas, por entre os riachos que lhe escorrem do rosto, descobre-me e corre ao meu encontro. 

Avó….!!!! E recebo o abraço mais quente (e encharcado) da minha vida!

 

Este episódio trouxe à minha memória outra passagem 20 anos atrás.

O Sete, chega da escola todo às riscas verdes.

Andaste a rebolar-te na relva ? Perguntei.

Fui assaltado ali no jardim.

E o assalto suja de verde?

Andamos muito tempo à pancada na relva, até ficarmos amigos! Depois estivemos a falar…

O sete também explodia de espontaneidade perante a surpresa! Ainda algum dia uma surpresa lhe pode ser fatal!

fotografia daniel sampaio

“Precisa de estudar mais a gramática indicada”
Maria Ema Ferreira

Esta foi a única vez que a minha Avó se zangou comigo. Quando lhe dei o caderno de português para assinar, olhou-me com atenção, escreveu o nome com a sua letra antiga e bem desenhada e disse, mais ou menos assim: “Querido Dani, espero que isto nunca mais se repita. Estás em minha casa e gosto muito disso, mas tudo tem de correr bem, sobretudo com os estudos, que são a tua obrigação. Não te esqueças que prometeste ser um bom aluno, nem de outra forma poderia ser, se queres continuar por cá, como me parece. E agora podes ir brincar para o pátio, porque me parece que já fizeste os trabalhos do liceu”
O tom era sereno, o olhar firme. Depressa voltou aos seus bordados e eu fui jogar à bola com os vizinhos, nas traseiras do apartamento de Campo de Ourique. Mas não esqueci o incidente: vejo ainda agora o caderno do Liceu normal de Pedro Nunes, verde com letras pretas, reconheço a letra e a assinatura da minha professora de Português e Francês, Maria Ema Ferreira. Tenho dez anos acabados de fazer e estou no 1º ano do liceu (no 5º ano, como se diria agora). Os meus pais, eternos defensores do ensino público e laico, não queriam que eu saísse da primária para um colégio privado e religioso, como era habitual para os meninos da classe média. Em Sintra, onde vivíamos, a oferta escolar era diminuta nos anos 50:
Não havia ensino público liceal e os colégios privados, embora prestigiados, não agradavam às convicções dos meus pais. Tal como tinha acontecido com o meu irmão, sete anos mais velho, a decisão de passar três anos na casa de Lisboa da minha Avó não levantava grandes questões para a nossa família.
A minha avó Sarah (escrevia com h no fim por razões da sua ascendência judaica, como se verá) era mãe da minha mãe. Passava as férias grandes em Sintra, numa casa construída pelo seu sogro, Marcelino Augusto Branco, cedida em parte aos meus pais após o casamento. Depois da morte do meu avô materno, em 1941, tinha alugado um pequeno apartamento em Campo de Ourique, onde recebia com frequência as duas filhas ( a minha mãe Fernanda e a minha tia Regina)e os três netos ( o meu irmão Jorge, o meu primo Filipe e eu). Passei lá três anos, dos 10 aos 13, como já tinha acontecido com o Jorge: a ideia era crescermos um pouco para sermos capazes de suportar a ida e volta de Sintra para Lisboa, em comboios sempre atrasados e pouco frequentes. Embora não fosse fácil viver separado dos pais (só nos víamos ao fim de semana ou em visitas ocasionais de minha mãe), a minha Avó era uma pessoa tão afectuosa e coerente na educação que a experiência de viver consigo foi marcante. Relato o episódio do caderno de Português, não só foi determinante para que de imediato eu percebesse quem mandava, mas também para compreender desde logo o entendido com obrigatório: ser bom estudante.
Não se pense, contudo, que só o estudo interessava à minha Avó: tinha grande preocupação com os meus colegas, que recebia com gosto, pedindo à Assunção – uma empregada/governanta que a acompanhou até ao fim dos seus dias – para não se esquecer de “preparar o lanche para os meninos”. Sentava-se ao pé de nós e perguntava pela vida do liceu, sem se intrometer na nossa intimidade, apenas com a preocupação de que eu não vivesse isolado: vindo de Sintra, afirmava, corria maior risco de não fazer amigos (a minha Avó, que era do tempo do rei D. Carlos e que recordava a Rainha D. Amélia a passear na Pena, achava que Sintra se tinha tornado muito desinteressante). Distinguia, no entanto, colegas e conhecidos dos verdadeiros amigos: quando propus fazer um lanche com quase toda a turma, lembrou-me que “os amigos são como os diamantes, preciosos mas raros”, e eu depressa risquei mais de metade dos nomes. Verifico agora, cinquenta anos depois, como tinha toda a razão.
Sempre me intrigou por que razão nunca gritava, mesmo quando se notava que alguma coisa a tinha irritado: olhava apenas um pouco de lado, às vezes sorria com meia cara e dava a sua opinião sem medo. Com persistência, levava os outros a concordar consigo, pois para nós (sobretudo os netos) era muito difícil discordar dela. Não tinha grandes estudos, mas, como era típico das senhoras da classe média-alta de então, falava bem francês e inglês, interessava-se por música e pela leitura dos clássicos: estou certo de que foi uma das principais responsáveis pelo meu amor pelos livros.
Durante muito tempo não me interessei pelas suas origens. Queria recordá-la no presente, como se os anos não tivessem passado e eu ainda estivesse em Campo de Ourique. Ou nos jantares de Natal, por si presididos na casa de Sintra: a Avó Sarah a sorrir, a perguntar que tal estava o peru, a olhar para os netos com ternura quando desembrulhávamos os presentes, ou ainda quando nos derrotava no jogo do Cluedo ou nas cartas do King (achava que os adultos nunca deveriam proteger as crianças e fazer batota, nós que aprendêssemos a jogar cada vez melhor).
Lembro-me da minha Avó quase todos os dias, recordo-me dos seus comentários em muitos momentos, mas foi a tão discutida questão da autoridade que me despertou curiosidade pelo seu passado. (…)

Daniel Sampaio
Prof. Catedrático de Psiquiatria e Saúde Mental da Fac.Medicina
(6ª ed.,2008) A Razão dos Avós.Lisboa:Editorial Caminho.

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